Evangelização infantil #001



Dando início à série de vídeos sobre evangelização no canal Quanta Luz, eu decidi publicar sobre o jogo que desenvolvi sobre a pluralidade dos mundos habitados, e que foi meu projeto de conclusão de curso. Espero que possa inspirar e ajudar a quem possa sentir-se inspirado e ajudado na tarefa da evangelização infantil. Comecei a participar da equipe de evangelizadores do centro espírita que frequento somente esse ano, então toda correção, dica e ensinamento, mais do que válidos, serão de grande valia.



7:05


O tempo é uma dimensão muito curiosa. Tenho pensado sobre o assunto já há muitos meses, entre paradas e solavancos, sem chegar exatamente a uma conclusão reveladora; coisa que aliás nunca pretendi alcançar em virtude de minha mente muitíssimo limitada.

Mas bem... Acontece que todas as sextas à noite sento-me na mesma cadeira num grupo de estudo que frequento no centro espírita, e posiciono-me diante de um relógio circular, que fica pendurado na parede em cima da entrada. Naquele dia marcava sete e cinco, uma reta. E me veio ali o pensamento de que o tempo é tudo o que existe: não há nada que não seja definido pelo tempo. A semente é a árvore, o embrião é o homem, a madeira é o barco. Assim também o poente é a aurora, o erro é a reparação, a experiência é o progresso, e o átomo é o anjo.

A distância que separa quem fomos de quem seremos, é o tempo. E é importante estabelecer o tempo como distância para que não o entendamos como força que trabalha sozinha na construção do Ser, pois não é absolutamente isto. Somos os artífices do nosso progresso moral e intelectual e não há nada que o tempo possa fazer em nosso lugar.

Mas é muito interessante entender o tempo dessa maneira: não como a mera marcação cronológica dos acontecimentos, mas como o registro de quem nós somos. Posso dizer com muita segurança que eu sou agora 18 de Abril de 2015. É quem eu realmente sou, porque representa o conjunto de quem eu consegui me tornar ao longo das existências até hoje.

Chega a ser muito óbvio, mas a noção é também tranquilizante em detrimento de duas percepções que possamos estabelecer: a) em nossas proporções o tempo é irredutível b) o progresso é lei da natureza. Isto significa que é expressamente impossível permanecer onde estamos e em quem somos para sempre. E se consideramos que a perfeição é o ponto de chegada do nosso processo evolutivo, ou da lei de progresso que atua sobre nós, e, mais ainda, que a perfeição conduz a felicidade, então a maior fatalidade da existência é ser feliz. Inevitável, indesviável, invariável, implacável: é uma questão de tempo. O átomo é o anjo.

Quando pensamos desta maneira, há uma frase bíblica cujo sentido é notadamente modificado segundo o que geralmente se interpreta a seu respeito. Ei-la: "Deus criou o homem à sua imagem e semelhança". Bem, se Deus nos criou a sua imagem e semelhança, o que nos diz a lógica é que somos deuses. E na verdade não há disparate nenhum nesta afirmação, posto que o próprio Cristo já a fez: "vós sois deuses, brilhai a vossa luz". O que tudo isto significa? Como é possível que eu seja imagem e semelhança de Deus e, mais ainda, por que o Cristo corroborou com a sentença ao nos dizer que somos de fato deuses?

Bom, creio que a esta altura a resposta seja muito clara: é o tempo. Se pensarmos bem, um feto guarda pouca ou quase nenhuma semelhança com os seus pais, mas não deixamos de dizer que ele é a imagem e semelhança daqueles que lhe geraram, pelo fato de que ele realmente o será um dia. O feto, sabemos todos, é apenas um estágio de desenvolvimento até que aquele projeto de ser se torne um homem muitíssimo parecido com seu pai, embora nunca se torne de fato o pai.

O mesmo se sucede conosco, Espíritos, em relação à Deus, ou ao Cristo, que está mais perto de nós. Não seremos Deus, mas podemos ser deuses! Por enquanto somos criancinhas pequenas, bebês, num aprendizado contínuo que nos ajuda a crescer com vigor. Assim como os nutrientes provenientes do alimento material catalisam e possibilitam que nosso corpo mude e se desenvolva, também as experiências constituem o pão de nosso espírito. As experiências culminam em mudanças morais que transformam o Espírito para melhor, rumo a perfeição. Rumo a Deus.

Neste ínterim é o tempo que sinaliza os quilômetros que havemos de ter percorrido. E as batidas do relógio marcam os segundos solenes que proclamam a aproximação inexorável da nossa felicidade. 

A política é divina



A política é divina.

Parece um contrassenso, a princípio, se consideramos o panorama de corrupção que permeia este tipo de cenário social. Se a política é corrupta não pode ser divina, já que ser divino implica ser perfeito. E, sinceramente, não me parece que determinados congressistas brasileiros estejam próximos sequer de uma conduta moral coerente com seus discursos. No entanto, lembremos de Platão quando da enunciação do mundo das ideias, na defesa de que existem dois mundos distintos nos quais tomamos parte, o físico, ou inferior, e o ideal, ou superior. Explica Nash (2013):

"O mundo superior é composto de essência imaterial e eterna que apreendemos com nossas mentes. O mundo ideal de Platão (algumas vezes chamado de o mundo das Formas) é mais real para Platão que o mundo físico, na medida em que as coisas particulares que existem no mundo dos corpos, são cópias, ou imitações, dos seus arquétipos, as Formas." (Life's Ultimate Question, p.63)

Em outras palavras, Platão busca compreender o mundo como uma réplica de um outro perfeito, além dos nossos sentidos. O que conhecemos por árvore na verdade não é uma árvore, mas uma imitação de uma árvore que existe no mundo das ideias, em um patamar de perfeição. Esta concepção da origem do mundo inaugura uma nova abordagem filosófica com Platão. Como afirma Chagas (2009), "nenhum dos filósofos que o antecedeu tinha vislumbrado a possibilidade de se explicar as causas do universo por meio de um princípio metaempírico. Pelo contrário, todas as suposições feitas até então partiam sempre da própria realidade física."

Corroborando com a tese do mundo das Formas, o livro de Êxodo atribuído à Moisés, no Velho Testamento, descreve uma circunstância muito sutil cuja leitura, através de Platão, ganha luzes distintas acerca da existência de um mundo perfeito e superior a este, o físico. Está no capítulo 25, nos versículos 8 e 9: "Faze-me um santuário, para que eu possa habitar no meio deles. Farás tudo conforme o modelo da Habitação e o modelo da sua mobília que irei te mostrar."



Eis o contexto. Os hebreus haviam saído da escravidão no Egito sob instruções divinas confiadas a Moisés, que liderou o povo pelo deserto em busca de uma terra onde habitar. Mas não era uma terra qualquer, tratava-se da Terra Prometida pelo Senhor, cujas orientações permeiam todo o livro de Êxodo, ganhando especial significado na Aliança do Sinai. Encontramos ali uma culminância de todos os eventos anteriores à chegada dos hebreus diante do monte Sinai: a teofania. O momento em que o Senhor desce à montanha e confia o Decálogo a Moisés, nas tábuas de pedra. E aí depois que transmite as leis para os hebreus aos pés do monte, Moisés retorna à montanha dessa vez acompanhado de Aarão, Nadab, Abiú e sententa anciãos de Israel, como lhe instruíra o Senhor. E lá permanece quarenta dias e quarenta noites, período onde encontramos registrado os versículos citados anteriormente, quando das "prescrições referentes à construção do santuário e aos seus ministros".

É interessante porque a noção pode passar despercebida, visto que ela repousa exatamente na palavra 'mostrar' do último versículo. Deus não explica, não sugere, não ensina, ele mostra a Moisés o modelo da Habitação. Imaginemos uma situação análoga. Digamos que comprei um imóvel e quero que meu quarto seja igual ao que vi em uma revista. Naturalmente vou sentir dificuldade de explicar para um arquiteto a minha visão do quarto, de maneira que mostrá-lo as páginas da revista será muito mais fácil e exato. Não acho que seja o caso de uma entidade espiritual estar apresentando um Catálogo Celeste de santuário à Moisés, é claro. E por isto, os versículos nos apontam ao entendimento de que um santuário teria sido mostrado a ou intuído por Moisés, em um mundo elevado, acima deste, para que ele criasse uma réplica, ainda que primitiva, no plano terreno. Este entendimento nos conecta diretamente à reflexão de Platão sobre um mundo das Formas, o mundo ideal.

É à luz desta concepção que pode-se afirmar a política ser divina. O nosso sistema político, as representatividades do povo, o líder da nação e seus ministérios, seria uma organização social copiada de uma mais perfeita localizada em plano espiritual, ou mundo ideal. E não precisamos ir muito longe para encontrar referências sobre a organização política em cidades espirituais. Em Nosso Lar, André Luiz nos relata um diálogo com Lísias, logo em seus primeiros dias na colônia:

"Não tem visto, nos atos da prece, nosso governador espiritual cercado de 72 colaboradores? Pois são ministros de Nosso Lar. A colônia, que é essencialmente de trabalho e realização, divide-se em seis Ministérios, orientados, cada qual, por 12 ministros. Temos os Ministérios da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação, do Esclarecimento, da Elevação e da União Divina. Os quatro primeiros nos aproximam das esferas terrestres, os dois últimos nos ligam ao plano superior, visto que nossa cidade espiritual é zona de transição." (Nosso Lar, p. 52)

Tanto na passagem de Êxodo como em Nosso Lar, é oportuno destacar a presença dos termos Ministros e Ministérios. E é curioso porque Moisés sobe a montanha acompanhado de 70 anciãos, identificados como ministros no registro bíblico, ao passo que Nosso Lar conta com 72, distribuídos em cinco ministérios. Impossível deixar passar despercebida esta organização política em planos espirituais, ao confrontá-las com a nossa própria, aqui em plano terreno, principalmente se a entendemos sob a ótica de Platão, do mundo de arquétipos e formas que servem de modelo para nosso mundo.

Não surpreende, por conseguinte, que encontremos no comentário de Allan Kardec à questão 266 do Livro dos Espíritos, a seguinte afirmativa: "A vida humana é, assim, uma cópia da vida espiritual; nela encontramos, em menor escala, todas as peripécias da outra". E mais à frente, na questão 278, destacado em resposta da espiritualidade: "É todo um mundo, do qual o vosso é pálido reflexo", referindo-se ao mundo em que os Espíritos interagem entre si.





Ante esta breve excursão intertextual, podemos chegar afinal a uma conclusão interdimensional a respeito da política humana. Se a organização política, entendendo-a como sistema de representatividade do povo, trata-se em primeira instância de uma organização superior e divina , isto significa que a política humana, entendida como um esboço ou projeto da mesma, é perfectível.

Mas no que consiste a perfectibilidade política? Onde está o seu progresso?

Como não é um organismo vivo, mas um sistema alimentado por individualidades que asseguram seu funcionamento por meio de suas respectivas competências, entende-se que a chave de seu progresso é a chave mesma do progresso dos indivíduos que lhe compõe, ou seja, a transformação moral. A política só é corrupta à medida que os políticos são corruptos.

Os protestos dos últimos tempos em busca de um fazer político mais correto, que agora representam uma espécie de sentimento de urgência generalizado, reforçam um movimento de defesa por uma Nova Política. Sobre nova política fala-se em diversos debates, tocando-se em plebiscitos, desligações partidárias, extinção de reeleições, alternância de poder. Mas é muitíssimo curioso, e quase inacreditável, que em nenhum momento o conjunto de opiniões frenéticas do povo sobre reforma política consiga tocar no ponto da reforma íntima, que vem a ser  o ponto chave para o progresso da política e, por conseguinte, para sua afirmação divina.

O sentimento de urgência deve ser pela reforma que opera de dentro para fora, do indivíduo ao organismo político. É necessário se faça uma reforma que toque no íntimo de todo aquele envolvido no sistema político, transformando-os no sentido moral que lhes é incipiente. No que toque a honestidade, o amor, a fraternidade, a benevolência e a caridade. Como observar mudanças no mundo sem uma mudança individual que nos torne todos agentes do bem comum?

É impossível conceber uma Nova Política que não seja resultante de um movimento de Reforma Íntima. Esta reforma é, por sua vez, uma experiência de transcender à própria existência, encontrando na espiritualização uma fonte de respostas mais justas e éticas às problemáticas do mundo, mais que aquelas fornecidas pelas correntes materialistas ou niilistas. Acontece que a transcendência é função por excelência da Religião, entendida aqui em seu sentido essencial de "religar"¹ o homem à Deus. Não que seja o momento de o Estado declarar-se cristão ou budista, pois seria um contrassenso. Trata-se de entender-se religioso, porque espiritual, não num sentido sectário e sim universal. No lugar de rejeitar a religião em seu funcionamento, admiti-la, fazendo mais do que aceita-la por direito do cidadão em sua liberdade de culto, incorporando o seu código ético no fazer político. A este respeito Herculano Pires apud Incontri (2001) faz uma ressalva pertinente, defendendo a extinção do laicismo já na Educação, o que é adequado quando se observa que ela está da formação do coro político de qualquer país:

"O laicismo foi apenas um elemento histórico, inegavelmente necessário, mas que agora tem que ser substituído por um novo elemento. E qual seria essa novidade? Não, certamente, o restabelecimento das formas arcaicas e anacrônicas do ensino religioso sectário nas escolas. Isso seria um retrocesso e portanto uma negação de todas as grandes conquistas (...). Reconhecendo que a Religião corresponde a uma exigência natural da condição humana, e que pertence de maneira irrevogável ao campo do Conhecimento, devemos reconduzi-la à escola, mas desprovida da roupagem imprópria do sectarismo. Temos de introduzir nos currículos escolares, em todos os graus de ensino, a disciplina Religião ao lado da Ciência e da Filosofia. Sua necessidade é inegável, pois sem atender aos reclamos do transcendente no homem não atingiremos os objetivos da paidéia grega: a educação completa do ser para o desenvolvimento integral e harmonioso de todas as suas possibilidades" (Pedagogia Espírita, p. 226-227)

A política é, portanto, essencialmente divina. Não somente em detrimento de seu caráter perfectível, mas sobretudo por sua origem metafísica. Todavia, só consuma-se como tal, porquanto seja capaz de evoluir como organismo de individualidades, passando de uma totalidade irrealizável de personalidades egocêntricas, para um conjunto metonímico, em que as partes consigam representar os anseios do todo. Esta evolução consiste num processo demorado de reforma íntima resultante de uma educação administrada e auto realizada, convergindo invariavelmente ao transcendente que é constituinte de todo desenvolvimento "integral e harmonioso".

Em palavras modestas, a política é divina porque somente aproxima-se do perfeito através da religião, entendida em sua acepção mais profunda.













Referências:

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição rev.e ampl. São Paulo: Paulus, 2002. 
CHAGAS, José Soares das. O DUALISMO PLATÔNICO FRENTE À ONTOLOGIA DOS PHISIÓLOGOS. Revista Homem, Espaço e Tempo, Vale do Acaraú, p.83-109, set. 2009. 
Bimestral.
INCONTRI, Dora. Pedagogia Espírita: um projeto brasileiro e suas raízes. Bragança Paulista, Comenius, 2001.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília, FEB, 2013
NASH, Ronald H. Life's Ultimate Questions. Louisville: Zondervan, 2013.
XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Brasília, FEB, 2013. 

Notas:

1 - do latim: "re-ligare", que significa "voltar a ligar", ligar novamente".

Hebreus

A sensação é de que Israel sofre de uma espécie de 'síndrome de peter pan' extenuante. Recusa-se ao crescimento e à vida adulta, para a qual deveria estar caminhando. É enternecedor perceber como o inesquecível "fermento dos fariseus" ainda é substância que congestiona corações dentre judeus extremados. Inevitável recordar-se, em reflexão de todos os conflitos armados, da epístola aos hebreus, quando o autor assim se expressa:

"Pois, uma vez que com o tempo vós deveríeis ter-vos tornado mestres, necessitais novamente que vos ensinem os primeiros rudimentos dos oráculos de Deus, e precisais de leite, e não de alimento sólido. De fato, aquele que ainda se amamenta não pode degustar a doutrina da justiça, pois é criancinha! Os adultos, porém, que pelo hábito possuem o senso moral exercitado para discernir o bem e o mal, recebem o alimento sólido." (Hb 5, 12-14)

O autor busca advertir Israel acerca de sua progressão lenta e dificuldade em apreender os sublimes ensinamentos e significado do Cristo. Adverte, porque diferente dos povos pagãos da Antiguidade, Israel já há mais de mil anos cultivava uma vida em aliança com Deus. Desenvolviam um culto não em torno das imagens de pedra e metal fundido, mas diante do desafio de um monoteísmo ligado ao sentimento de presença espiritual habitando no meio do povo. Tomados por inferiores, eram, no entanto, o povo eleito de Deus, alvos de pedagogia incompreendida, filhos pequenos em que os desígnios sagrados de amor, consumados no Cristo, deveriam se realizar dali para todas as nações.

Mas já naqueles dias, há dois mil anos atrás, a reclusão de Israel no orgulho e na recusa em admitir um rei cujo reino não é deste mundo, eram tidas como cegas e incompreensíveis. Que dirá hoje, quando quatro mil anos nos separam de Abraão! Como entender, no transcurso da evolução e, tanto quanto, diante de tão expressivo percurso histórico, que Israel continue a crer no Senhor dos Exércitos, em contrapartida ao Senhor das Estrelas?

Ora, de fato é penoso o exercício de ler as notícias dos últimos dias, em face de tanto sofrimento, injustiça e vida ceifada. Mas tanto quanto, é penoso também reviver a dura compreensão de que somos todos hebreus. Rememorar que aquela epístola se dirige à humanidade, na visão de que a história de Israel é também a nossa. De que somos nós, fugindo da escravidão no Egito Antigo, com um deserto agigantado no caminho para a Terra Prometida.



Sentimos no fundo das nossas intuições ou na ponta dos dedos direcionados ao céu, que o mundo se revolve de anseios e de íntimas cogitações angustiadas. Chegamos a um ponto em que a areia superada por nossa jornada de erros e redenções, é um percurso muito distante para fazer a volta. Mas as montanhas do deserto que ainda nos desafia pela frente é insondável e intimidante. De tal maneira sentiram-se os hebreus no passado:

"Iahweh nos odeia! Fez-nos sair da terra do Egito para nos entregar nas mãos dos amorreus e nos exterminar! Para onde subiremos? Nossos irmãos nos desencorajaram, dizendo: É um povo mais numeroso e de estatura mais alta do que nós, as cidades são grandes e fortificadas até o céu." (Dt 1: 27-28)

Neste trecho, a terra prometida está ali mais perto de Israel do que jamais esteve por quarenta anos de peregrinação no deserto dos sofrimentos, e ali titubeiam no desafio. Que faremos? Retornar, permanecer ou prosseguir? A humanidade passa por um período decisivo. Sente sede e fome. Atravessou dias secos e amargos e conheceu oásis de ilusões. Chega a um ponto do caminho em que não consegue encontrar, debaixo de seus pés, as respostas para as perguntas mais fundamentais, que faz sob o peso do céu. A este respeito, fala Kardec com sua reconhecida precisão:

"Eis o inevitável efeito das épocas de transição: desaba o edifício do passado, sem que ainda o do futuro se ache construído. O homem se assemelha ao adolescente, que, já não tendo a crença ingênua dos seus primeiros anos, ainda não possui os conhecimentos da idade madura. Apenas sente vagas aspirações, que não sabe definir." (A Gênese, p. 78)

Os mísseis que partem de Israel, repercutem no íntimo da humanidade. Não somos nós que bombardeia-mo-nos uns aos outros, diariamente, com projéteis de egoísmo e orgulho? Cuja intolerância e vaidade, pretende subjugar opiniões, credos, raças, nacionalidade, em função das nossas próprias? Quantas vezes as nossas palavras não fizeram desmoronar a alegria de alguém ou lhe atearam fogo na paz! A guerra em Israel é a guerra íntima e silenciosa que a humanidade trava todos dias. E por isso é ainda mais doloroso observar as atrocidades que nos chegam. São como um espelho de nós próprios: hebreus peregrinos, no deserto de suas dores, em busca de conquistar a terra prometida.

Afinal, permitam-me transcrever mais algumas palavras de Kardec. Um trecho um pouco extenso mas que, há de se reconhecer, valerá muito mais do que todo este lido:

"Já não é o Deus de um único povo privilegiado, o Deus dos Exércitos, presidindo aos combates para sustentar a sua própria causa contra o deus dos outros povos, mas o pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção por sobre todos os seus filhos e os chama todos a si; já não é o Deus que recompensa e pune só pelos bens da Terra, que faz consistir a glória e a felicidade na escravidão dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas sim um Deus que diz aos homens: "A vossa verdadeira pátria não é neste mundo, mas no reino celestial, lá onde os humildes de coração serão elevados e os orgulhosos serão humilhados." Já não é o deus que faz da vingança uma virtude e ordena se retribua olho por olho, dente por dente; mas o Deus de misericórdia, que diz: "Perdoai as ofensas, se quiserdes ser perdoados; fazei o bem em troca do mal; não façais a outrem o que não quereis que vos façam". Já não é o Deus mesquinho e meticuloso, que impõe, sob as mais rigorosas penas, o modo como quer ser adorado, que se ofende com a inobservância de uma fórmula; mas o Deus grande, que vê o pensamento e não se honra com a forma. Enfim, já não é o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado". (A Gênese, p. 24-25)


Referencias

KARDEC, Allan.  A Gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2010.
BIBLIA, 
 Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002. 

Magnetismo e a Lei de Amor


Já faz alguns anos que entre um pensamento e outro, tento encontrar racionalizações para Deus e tudo que lhe diz respeito. Quero dizer racionalizações curiosas, não aquelas orgulhosas. Numa dessas excursões mentais parei pra pensar naquela frase que diz: Deus é amor. Provavelmente toda a ideia foi engatada em um banho sossegado, entre a leitura da composição química do shampoo e a observação das ondas que a água produzia no chão raso. Será que, para o amor haveria uma explicação mais racional cujo vislumbre pudesse ser verificado nas ciências do mundo? E aí quem sabe aproximar-mo-nos mais da compreensão de Deus?

De fato, no Livro dos Espíritos somos esclarecidos a respeito das Leis Naturais, e de como elas englobam as leis físicas que estão intrinsecamente associadas às leis morais: se uma pedra atirada cai ao chão, atestando a Lei de Ação e Reação, o mal praticado contra um irmão é origem de uma moléstia ou provação pela qual passamos no futuro, obedecendo a Lei moral de Causa e Efeito, por exemplo. Considerando a eloquência com que o Espiritismo nos clareia a consonância admirável entre religião e ciência, me pus a considerar uma maneira de trazer o Amor para mais perto das leis físicas, e assim dar um novo passo na definição de Deus dentro da minha cabeça e coração. As respostas vieram numa circunstância em que não esperava que viessem.

Estava ali eu e minha sobrinha pequena, brincando com duas pedras de imã que havíamos redescoberto no fundo de uma caixa do guarda roupa. Como ela é uma criança que enjoa fácil das brincadeiras, e como os recursos são poucos, é preciso estar sempre disposto a re-inventar o que temos para criar uma nova dinâmica. E aí depois de testar os sons das pedras se chocando pela atração irresistível, sugeri que as pedras fossem personagens de uma história. O que acabou sendo extremamente oportuno para ensinar a ela a respeito da simpatia e antipatia entre os seres, de maneira que Júlio (carga magnética positiva) se sentiu inexplicavelmente afinado e atraído por Luíza (carga magnética negativa), mas visivelmente antipático à Frederico (carga magnética positiva).

Preferi não falar em laços espirituais para respeitar as convicções precoces dela, mas o termo "magnetismo espiritual" pareceu ser bem recebido na brincadeira, até pela relação com o imã. Falamos sobre pessoas que estão sempre juntas uma da outra e sobre pessoas com quem não "vamos muito com a cara". E à medida em que avançávamos na história, conseguimos trazer a noção de que era o Amor que continuava atraindo e envolvendo Júlio aos caminhos de Luíza. Finalmente, a minha sobrinha chegou por suas próprias conclusões, à constatação de que o amor entre os personagens era eterno ("esse amor é eterno mesmo viu.."), descobrindo, portanto, um atributo determinante que o define.

No final do dia a brincadeira com o imã já tinha passado pelo truque de mover o objeto por debaixo da mesa, e chegava agora à correntes magnéticas, unindo objetos de metal um ao outro. Foi quando senti que a analogia talvez não fosse somente uma analogia. Na realidade eu devia ter aprofundado o tema do amor já ali na corrente de metais, explicando como ele é uma força que une ao mesmo tempo que é transmitido. Mas acho que somente agora formulei realmente a noção.

No inicio do pensamento lá no banho, sei lá há quanto tempo atrás, imaginei se o amor, antes desse sentimento que sentimos uns pelos outros, não seria na verdade uma força reguladora que busca (re)estabelecer a unidade e harmonia no universo. De forma que a questão não seja o amor que sentimos, mas o grau de coesão que há entre os seres.



Penso que a Lei de Amor, sintetizada no ensinamento de Jesus ("amai-vos uns aos outros como eu vos amei"), talvez seja uma lei de proporção física muito maior do que jamais supus. E se o amor é uma força tal a de um imã? Sua propriedade é de atração irresistível (inevitavelmente amaremos), num comportamento cósmico de assegurar a unidade. Ela será mais ou menos intensa, de acordo com a proximidade (afinidade) espiritual, assim como os imãs. Só que também será obrigatoriamente uma força que provoca repulsa, como se observa entre os pólos de mesma carga.

Dada a Unidade observada em toda a Criação Divina, Deus não terá criado algo que colabore com a desunião. O que dizer pois da repulsa magnética, isto é, da repulsa natural entre os seres? Bem, isto nos leva primeiro a outra lição do Cristo: "Amai até mesmo os vossos inimigos". As nossas antipatias ou repulsas magnéticas representam, em grau extremo, os nossos inimigos, com quem a relação repulsiva se desenvolve a partir de interferências danosas que causamos às vidas um do outro.  Mas como aprendemos na questão 887 do Livro dos Espíritos, isto não quer dizer que necessariamente devemos ter pelos inimigos a mesma manifestação de amor que temos por nossos amigos. Significa, principalmente, retribuir o mal com o bem. E esta informação é de extrema importância, pois é fato decisivo que classifica a Lei como de Amor, mais do que pura e simplesmente de Magnetismo.

Se as polaridades tais entre duas pedras de imã fazem com que uma se afaste da outra, o Espírito, por outro lado, é vivo e dotado da capacidade de alterar sua vibração, seus sentimentos, sua carga magnética; ele possui livre arbítrio. Quando retribui o mal com o bem, provoca uma mudança sensível no sentido da força, estabelecendo uma atração que no início é fraca mas que cresce até ser forte o suficiente para gerar aproximação involuntária. Como bem defende a sabedoria popular e a própria psicologia, o ódio nada mais é que uma manifestação do amor, corroborando com a sentença de que há somente uma força, cujos sentidos vetoriais influem no maior ou menor grau de atração entre os seres.

E o melhor: não somente atrai, como une à medida que se transmite. É a corrente de metais da minha sobrinha. Tal qual um imã e a notável capacidade de repassar sua propriedade magnética à determinadas ligas metálicas, o amor de um é capaz de contagiar todos os seres, ligando-os uns aos outros sucessivamente em uma corrente fraterna, universal e eterna. Uma força de fato extraordinária e misteriosa como uma pedra magnética. Capaz inclusive de apontar caminhos e orientar jornadas como uma bússola do Espírito.

Conclui que era um pensamento relevante. Deus passou a fazer ainda mais sentido, quando verificado na frase "Deus é amor". Neste sentido, Ele será força reguladora do mundo, sem a qual tudo está desunido, fragmentado, caótico. É uma ideia a se pensar noutras oportunidades de banho.

Perto da minha sobrinha ir embora perguntei se ela não queria ficar com uma das pedras e eu ficava com a outra, para que as juntássemos quando nos encontrássemos. Ela segurou considerando a proposta dizendo que "ia ser massa", mas logo voltando atrás com "não, mas eu vou perder". Provavelmente ela ia mesmo acabar perdendo entre brinquedos e cobertores. Guardei-as comigo. Antes de bater a porta de despedida, no entanto, ela soltou um beijo e gritou: "Amor eterno!". Desconsertado, gritei o mesmo. Graças à Providência divina, este imã ela não vai perder nunca.


Referências

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2010.
______.  A Gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2010.


A árvore


Todos os dias somos intimados a exercer a condição de testemunhas das atrocidades e anomalias sócio-políticas do nosso país. Elas figuram na linha do tempo de qualquer usuário da rede e multiplicam-se nas páginas de todo navegador. Algumas leio, outras prefiro não saber sob a pena de manter-me otimista. Mas sempre que analiso e paro pra pensar em tudo o que tem se sucedido em nosso país, inevitavelmente me reporto a uma sobreposição histórica da nossa sensação de poder público e justiça social, com aquela capturada na atmosfera do império romano, em especial a dos primeiros anos da Era Cristã. As intersecções são importantes e, penso, descortinam caminhos futuros.

Quando destacamos absurdos como o de cidadãos amarrando os bandidos em postes para serem chicoteados, ou como o de policiais que abusam da autoridade em episódios de desumanidade hedionda, incabível numa lista; quando verificamos os nossos representantes políticos em suas demonstrações de destemor e deboche perante a Lei; ao passo em que identificamos as deficiências dos programas governamentais, passando pelos desvios e falcatruas típicas das obras públicas, as semelhanças com o império de dois mil anos atrás se tornam não somente evidentes mas também assustadoras, posto o que está escrito na história e o que a partir dela pode ser projetado.




A política do pão e circo do império romano parece somente ter avançado na linha do tempo, como avançam diariamente as noticias da rede social. A semelhança chega a ser sinistra quando trazemos o conceito do Coliseu, e suas atrações gladiadoras, para o formato dos Octógonos dos lutadores de UFC, que viram febre nacional. Noutra vertente, o império em seu ápice expansionista, era também palco de relações entre povos de origem e culturas distintas, estabelecendo cruzamentos comparáveis ao encontro de raças do nosso país, responsável pela miscigenação e sincretismo peculiar do nosso povo. Infelizmente, também as sedentas perseguições religiosas, os silêncios impostos pelo medo, os bacanais desvairados, tudo encontra ligações modernas com o que vivemos aqui hoje. Por muito pouco, não são os famigerados, dentre os pretores romanos, aqueles que ressoam a batida do martelo magisterial em tantas de nossas audiências jurídicas. É por um quase nada, que não constatamos nos crimes brutais de estupro, no assédio e no estímulo ao sexo pernicioso, o cheiro acre dos banquetes e orgias promovidas pela aristocracia patrícia, no máximo do zelo escravocrata.

Ora, de fato o Império Romano é reconhecidamente uma base primitiva sobre a qual foi construído o Ocidente. Se muito do que existia lá encontra conexões aqui, também encontrará em todos os lugares do lado de cá do meridiano. Mas o ponto chave, deve-se ressaltar, está no recorte específico dos primórdios da Era Cristã. O Brasil, embora impregnado de barbáries e injustiça, é ainda a maior nação católica do mundo, com população majoritária de cristãos¹. Não é surpresa que o Cristo Redentor, de braços abertos sobre a paisagem tropical do Rio de Janeiro, seja símbolo intrínseco do nosso país na mente de qualquer estrangeiro. Que a Cruz esteja presente no nosso lábaro estrelado assim como no Cruzeiro do Sul que todas as noites nasce em nosso céu, numa lembrança solene da travessia do Cristo, e sinal inevitável da vocação espiritual de nossa pátria amada. A maior cidade do país e expoente continental, foi agraciada com um nome santo que presta homenagem a Paulo de Tarso, o convertido de Damasco, doutor da lei, mas sobretudo, o inesquecível Apóstolo dos Gentios. A Terra de Santa Cruz é  berço de fervores espirituais, de seguidores do Cristo.

Se no passado o Cristo escolheu viver no seio de Israel, entre o povo eleito, para dali estender os ramos de sua árvore por todo o Império Romano, é numa conjuntura política e social não menos debilitada que o seu evangelho transplantado fortalece as raízes e busca a luz divina em altitudes serenas, aqui no Brasil. Reconhece-se entre rostos de brasileiros, aqueles que um dia foram legisladores e autoridades romanas, sacerdotes e fariseus, que cobriram as lições do Cristo com um sudário de humilhação e ignomínia. Os circos dos martírios se convertem na crise interna em que verificamos luta constante, alavancada pelo alarido das acusações alheias.

Mas não fujamos! Muito embora a lívida consonância, os tempos que são outros, nos despertam e nos intimam a sermos mais que testemunhas do movimento que se engendra a favor da Pátria do Evangelho. Em sua forma geográfica de coração do mundo, não poderia ser outra a missão deste povo caloroso e gentil, que não a de ensinar a lei da fraternidade universal à todas as nações do mundo. No que falhou Roma, triunfará o Amor em território brasileiro, e dali para todas as partes. Nos disse Humberto de Campos²: "As reservas brasileiras não se circunscrevem ao mundo de aço do progresso material, que impressionou fortemente o espírito de Humboldt, mas se estendem, infinitamente, ao mundo de ouro dos corações, onde o país escreverá a sua epopeia de realizações morais, em favor do mundo."



Todos os dias quando me dou conta de todos os tormentos que injuriam o povo brasileiro, e que nunca sequer chegam à superfície da verdade, a tristeza é proporcional a esperança que me preenche. O sentimento de impotência, que é parte do nosso comodismo e do medo de enfrentamentos, é angustiante. O caminho exaustivo e repleto de agruras que o orgulho e o egoísmo tracejam, passa ainda por um vale nefasto de dor e sofrimento. A minha esperança vem do fato de que é necessário que o homem afunde sob a lama movediça do desespero, para que consiga agarrar-se ao tronco da misericórdia celeste. Tenho a esperança de um futuro onde todas as penas se extinguirão e todos os males serão superados. Que todos se tornarão seguidores da Lei do Amor, sob as bênçãos irradiantes do nosso Cristo, Jesus, e da inexaurível fonte de vida que parte de Deus, nosso Pai. Tenho esperança! Da entropia insustentável das injustiças, eclodirá a regeneração como hausto cálido às almas atormentadas.

Jesus imbuiu-se de humanidade para que, passando por todas as penúrias que nos afligem, sua doutrina do perdão, do amor e da caridade repercutisse fundo na transformação de nós mesmos. Os seguidores foram perseguidos e martirizados, mas continuando a se multiplicar, disseminando-se implacáveis pelas ruas da Roma em que Pedro lançou a pedra fundamental. Mas ainda em sua filosofia pueril, subverteram os ensinamentos e fecharam-se numa redoma de ilusões materiais. A palavra de poder, todavia, avançou por entre os séculos, latente, para florescer no solo fértil de uma pátria de gente simples e de coração aberto. Como bem pontua Humberto de Campos, "em cujas estradas, cheias de esperança, luta, sonha e trabalha o povo fraternal e generoso, cuja alma é a flor amorosa de três raças tristes, na expressão harmoniosa de um dos seus poetas mais eminentes".

Chegaram os dias de uma nova transformação no íntimo do homem. E somos nós, os brasileiros, que vamos na frente trazendo a humanidade ao progresso espiritual. Que o amor cubra a multidão de pecados para todo o sempre!


Notas:
1- 86,8% dos brasileiros são cristãos, segundo dados do IBGE (2010).
2- Autor espiritual do livro "Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho", psicografado por Francisco Cândido Xavier.

Lampejo


Há uma cena da trilogia Matrix que eu considero especialmente significativa e que reserva alguma semelhança com uma circunstância muito simples que me aconteceu ontem. No terceiro filme, no Matrix Revolutions, Neo e Trinity estão em sua nave indo em direção à cidade das máquinas, numa Terra obscurecida por uma nuvem densa o suficiente para impedir a passagem de qualquer resquício de luz solar. É uma das poucas vezes no curso dos três filmes em que é possível ter uma ideia do que o planeta havia se tornado sob o domínio daquela inteligência mecânica. Na tentativa de escapar ao bombardeio de resistência das sentinelas, Trinity manobra a nave para o mais alto em direção à nuvem. São somente alguns segundos, como realmente haveriam de ser, quando a personagem atravessa a escuridão e a luz do sol lhe ilumina o rosto pela primeira vez em um silêncio absoluto. Logo em seguida a nave perde altitude e o espectador é imergido mais uma vez no caos.

Eu não estava com o Keanu Reeves do meu lado, nem numa nave de alta tecnologia. Estava de onibus, que é meu meio de transporte oficial, acompanhado por uma dezena de pessoas comuns, ou paradoxalmente extraordinárias como descobriria dali em breve. Estava no caminho pra uma exposição onde encontraria uns amigos.

Eram por volta das 16:00 quando duas senhoras subiram pela porta dos idosos, e vieram em um andar vacilante mostrar a carteira de identidade ao motorista, para comprovar a aparente e inegável senilidade. Hoje em dia os ônibus possuem um sistema de câmeras internas (cujo funcionamento verídico ainda me é duvidoso), de maneira que basta apontar-lhe a carteira na entrada para que o idoso exerça seu direito ao transporte gratuito. Talvez elas não soubessem do procedimento, e o fato é que quando descobriram que tinham que percorrer todo o corredor de volta até a câmera num ônibus já disparado em movimento, apenas sentaram-se ligeiramente confusas e visivelmente indiferentes ao disparate, o que é muitíssimo compreensível.

Foi aí que se desenvolveu a circunstância muito simples da qual falei. Logo quando subi no ônibus, antes das senhoras, havia uma mulher algumas cadeiras à frente com sua respectiva prole: duas crianças mais grandinhas e uma pequena. Quando contrariada em seu divertimento insano de ficar metade pra fora do ônibus, a menorzinha tinha começado aquele choro típico das menorzinhas contrariadas. A mãe virou-se pra trás, olhando-a. Em minha experiência com transporte público, presenciei algumas situações deste tipo: das crianças inquietas de mães que não aguentam mais. E a reação dessas mulheres é sempre a mesma: uma raiva irrefreada a arrancar a criança do que está fazendo na tentativa de domá-la. O que é muito difícil, posto que ônibus são montanhas russas para toda criança que entra. Então quando olhei pros olhos da mulher virando-se pra menina, esperei conseguir identificar a fagulha do ódio. E de fato ela quase veio à tona. Mas foi estranha e rapidamente substituída, para meu alívio, por um olhar que era misto de 'achando graça' com 'o meu bebe é uma pessoinha'.  E aí disse somente: "me dê ela pra cá", com o menino que lhe segurava.

Então observando o que se passava com as senhoras, aquela mulher da prole levantou-se com agilidade e, muito naturalmente, pediu às duas senhoras as carteiras. Ela pediu assim: "me dê, meu amor". E aí levou até la trás, mostrou pra câmera e veio devolver. "Tome, veja aí quem é quem", disse rindo-se, e voltou a sentar-se. À essa altura o Sol estava indo se pôr no céu do lado direito do ônibus. Uma luz bonita se somava à luz daquele pequeno gesto. E eu fiquei olhando pra mulher sentada de costas, com seu cabelo curto amarrado num rabinho de cavalo. Era totalmente artificial, o loiro e o liso. Mas me pareceu que era muito verdadeira por dentro. A sua segurança, e o jeito de falar, eram peculiares ao de um tipo de mulher brasileira do qual sou fã. Daquelas guerreiras das boas, que resolvem tudo que aparece pela frente, que só se abatem momentaneamente diante da exaustão, e que não se apoiam em suas tragédias para justificar uma posição queixosa diante da vida.

Me senti profundamente inspirado pelo que eu tinha acabado de ver. Pensei comigo mesmo que as coisas não estão assim tão más quanto parecem estar. A equipe do bem está viva, reagindo e atuando na construção de um mundo novo. E isso me encheu de esperança, num lugar em que a violência está tão evidente e cheia de força, como se estivesse somente começando. Talvez fosse somente um fenômeno exagerado pelas bocas e pela mídia. O bem deve sim estar crescendo e disseminando-se em velocidade de cruzeiro. Mas tão logo eu me senti assim, e um menino num grupo de outros três na esquina em que o ônibus fez a curva, abaixou-se no chão e atirou uma pedra.



Aquilo me atingiu de uma maneira, que foi como se a pedra tivesse solapado na minha cara. Entrei e saí do estado de paz, para o choque daquela realidade num espaço de trinta segundos. Os bons que lutam pelo bem no mundo estarão sempre rodeados pelos que apedrejam e massacram. Por todos os que se encontram neste estado de atraso moral, e porque ainda há tanto tanto tanto o que ser feito pela depuração deste mundo, é que fui acometido por uma vontade de chorar tão grande que uma lágrima me escapou por trás do óculos escuro. Chorava como a menorzinha metade pra fora da janela do ônibus, somente pela constatação do que ainda está por vir, antes que o mundo conheça o melhor.

Assim como Trinity, era como se eu tivesse atravessado a nuvem negra da realidade e contemplado por uns poucos segundos a potência solar de um gesto; para depois ser trazido de volta à profusão de medos e conturbações. Mas eu penso que esses momentos são tão valiosos quanto aquela visão foi para a personagem, em especial numa circunstância de catástrofe iminente. São acontecimentos que nos renovam e, principalmente, que nos rememoram acerca da razão pela qual persistimos e lutamos esta longa batalha: em virtude da boa luta, que busca consolidar o bem e a lei do amor em todos os corações. Um objetivo de pequenas ações, mas de imensa repercussão no mundo em que viveremos no futuro. Que cheguem sem demora os dias em que gestos solares sobrepujarão as pedras atiradas, e enxergaremos o bem sublimando-se em cada um de nós. Abramos, portanto, os caminhos!