Há uma cena da trilogia Matrix que eu considero especialmente significativa e que reserva alguma semelhança com uma circunstância muito simples que me aconteceu ontem. No terceiro filme, no Matrix Revolutions, Neo e Trinity estão em sua nave indo em direção à cidade das máquinas, numa Terra obscurecida por uma nuvem densa o suficiente para impedir a passagem de qualquer resquício de luz solar. É uma das poucas vezes no curso dos três filmes em que é possível ter uma ideia do que o planeta havia se tornado sob o domínio daquela inteligência mecânica. Na tentativa de escapar ao bombardeio de resistência das sentinelas, Trinity manobra a nave para o mais alto em direção à nuvem. São somente alguns segundos, como realmente haveriam de ser, quando a personagem atravessa a escuridão e a luz do sol lhe ilumina o rosto pela primeira vez em um silêncio absoluto. Logo em seguida a nave perde altitude e o espectador é imergido mais uma vez no caos.
Eu não estava com o Keanu Reeves do meu lado, nem numa nave de alta tecnologia. Estava de onibus, que é meu meio de transporte oficial, acompanhado por uma dezena de pessoas comuns, ou paradoxalmente extraordinárias como descobriria dali em breve. Estava no caminho pra uma exposição onde encontraria uns amigos.
Eram por volta das 16:00 quando duas senhoras subiram pela porta dos idosos, e vieram em um andar vacilante mostrar a carteira de identidade ao motorista, para comprovar a aparente e inegável senilidade. Hoje em dia os ônibus possuem um sistema de câmeras internas (cujo funcionamento verídico ainda me é duvidoso), de maneira que basta apontar-lhe a carteira na entrada para que o idoso exerça seu direito ao transporte gratuito. Talvez elas não soubessem do procedimento, e o fato é que quando descobriram que tinham que percorrer todo o corredor de volta até a câmera num ônibus já disparado em movimento, apenas sentaram-se ligeiramente confusas e visivelmente indiferentes ao disparate, o que é muitíssimo compreensível.
Foi aí que se desenvolveu a circunstância muito simples da qual falei. Logo quando subi no ônibus, antes das senhoras, havia uma mulher algumas cadeiras à frente com sua respectiva prole: duas crianças mais grandinhas e uma pequena. Quando contrariada em seu divertimento insano de ficar metade pra fora do ônibus, a menorzinha tinha começado aquele choro típico das menorzinhas contrariadas. A mãe virou-se pra trás, olhando-a. Em minha experiência com transporte público, presenciei algumas situações deste tipo: das crianças inquietas de mães que não aguentam mais. E a reação dessas mulheres é sempre a mesma: uma raiva irrefreada a arrancar a criança do que está fazendo na tentativa de domá-la. O que é muito difícil, posto que ônibus são montanhas russas para toda criança que entra. Então quando olhei pros olhos da mulher virando-se pra menina, esperei conseguir identificar a fagulha do ódio. E de fato ela quase veio à tona. Mas foi estranha e rapidamente substituída, para meu alívio, por um olhar que era misto de 'achando graça' com 'o meu bebe é uma pessoinha'. E aí disse somente: "me dê ela pra cá", com o menino que lhe segurava.
Então observando o que se passava com as senhoras, aquela mulher da prole levantou-se com agilidade e, muito naturalmente, pediu às duas senhoras as carteiras. Ela pediu assim: "me dê, meu amor". E aí levou até la trás, mostrou pra câmera e veio devolver. "Tome, veja aí quem é quem", disse rindo-se, e voltou a sentar-se. À essa altura o Sol estava indo se pôr no céu do lado direito do ônibus. Uma luz bonita se somava à luz daquele pequeno gesto. E eu fiquei olhando pra mulher sentada de costas, com seu cabelo curto amarrado num rabinho de cavalo. Era totalmente artificial, o loiro e o liso. Mas me pareceu que era muito verdadeira por dentro. A sua segurança, e o jeito de falar, eram peculiares ao de um tipo de mulher brasileira do qual sou fã. Daquelas guerreiras das boas, que resolvem tudo que aparece pela frente, que só se abatem momentaneamente diante da exaustão, e que não se apoiam em suas tragédias para justificar uma posição queixosa diante da vida.
Me senti profundamente inspirado pelo que eu tinha acabado de ver. Pensei comigo mesmo que as coisas não estão assim tão más quanto parecem estar. A equipe do bem está viva, reagindo e atuando na construção de um mundo novo. E isso me encheu de esperança, num lugar em que a violência está tão evidente e cheia de força, como se estivesse somente começando. Talvez fosse somente um fenômeno exagerado pelas bocas e pela mídia. O bem deve sim estar crescendo e disseminando-se em velocidade de cruzeiro. Mas tão logo eu me senti assim, e um menino num grupo de outros três na esquina em que o ônibus fez a curva, abaixou-se no chão e atirou uma pedra.
Aquilo me atingiu de uma maneira, que foi como se a pedra tivesse solapado na minha cara. Entrei e saí do estado de paz, para o choque daquela realidade num espaço de trinta segundos. Os bons que lutam pelo bem no mundo estarão sempre rodeados pelos que apedrejam e massacram. Por todos os que se encontram neste estado de atraso moral, e porque ainda há tanto tanto tanto o que ser feito pela depuração deste mundo, é que fui acometido por uma vontade de chorar tão grande que uma lágrima me escapou por trás do óculos escuro. Chorava como a menorzinha metade pra fora da janela do ônibus, somente pela constatação do que ainda está por vir, antes que o mundo conheça o melhor.
Assim como Trinity, era como se eu tivesse atravessado a nuvem negra da realidade e contemplado por uns poucos segundos a potência solar de um gesto; para depois ser trazido de volta à profusão de medos e conturbações. Mas eu penso que esses momentos são tão valiosos quanto aquela visão foi para a personagem, em especial numa circunstância de catástrofe iminente. São acontecimentos que nos renovam e, principalmente, que nos rememoram acerca da razão pela qual persistimos e lutamos esta longa batalha: em virtude da boa luta, que busca consolidar o bem e a lei do amor em todos os corações. Um objetivo de pequenas ações, mas de imensa repercussão no mundo em que viveremos no futuro. Que cheguem sem demora os dias em que gestos solares sobrepujarão as pedras atiradas, e enxergaremos o bem sublimando-se em cada um de nós. Abramos, portanto, os caminhos!
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