Todos os dias somos intimados a exercer a condição de testemunhas das atrocidades e anomalias sócio-políticas do nosso país. Elas figuram na linha do tempo de qualquer usuário da rede e multiplicam-se nas páginas de todo navegador. Algumas leio, outras prefiro não saber sob a pena de manter-me otimista. Mas sempre que analiso e paro pra pensar em tudo o que tem se sucedido em nosso país, inevitavelmente me reporto a uma sobreposição histórica da nossa sensação de poder público e justiça social, com aquela capturada na atmosfera do império romano, em especial a dos primeiros anos da Era Cristã. As intersecções são importantes e, penso, descortinam caminhos futuros.
Quando destacamos absurdos como o de cidadãos amarrando os bandidos em postes para serem chicoteados, ou como o de policiais que abusam da autoridade em episódios de desumanidade hedionda, incabível numa lista; quando verificamos os nossos representantes políticos em suas demonstrações de destemor e deboche perante a Lei; ao passo em que identificamos as deficiências dos programas governamentais, passando pelos desvios e falcatruas típicas das obras públicas, as semelhanças com o império de dois mil anos atrás se tornam não somente evidentes mas também assustadoras, posto o que está escrito na história e o que a partir dela pode ser projetado.
A política do pão e circo do império romano parece somente ter avançado na linha do tempo, como avançam diariamente as noticias da rede social. A semelhança chega a ser sinistra quando trazemos o conceito do Coliseu, e suas atrações gladiadoras, para o formato dos Octógonos dos lutadores de UFC, que viram febre nacional. Noutra vertente, o império em seu ápice expansionista, era também palco de relações entre povos de origem e culturas distintas, estabelecendo cruzamentos comparáveis ao encontro de raças do nosso país, responsável pela miscigenação e sincretismo peculiar do nosso povo. Infelizmente, também as sedentas perseguições religiosas, os silêncios impostos pelo medo, os bacanais desvairados, tudo encontra ligações modernas com o que vivemos aqui hoje. Por muito pouco, não são os famigerados, dentre os pretores romanos, aqueles que ressoam a batida do martelo magisterial em tantas de nossas audiências jurídicas. É por um quase nada, que não constatamos nos crimes brutais de estupro, no assédio e no estímulo ao sexo pernicioso, o cheiro acre dos banquetes e orgias promovidas pela aristocracia patrícia, no máximo do zelo escravocrata.
Ora, de fato o Império Romano é reconhecidamente uma base primitiva sobre a qual foi construído o Ocidente. Se muito do que existia lá encontra conexões aqui, também encontrará em todos os lugares do lado de cá do meridiano. Mas o ponto chave, deve-se ressaltar, está no recorte específico dos primórdios da Era Cristã. O Brasil, embora impregnado de barbáries e injustiça, é ainda a maior nação católica do mundo, com população majoritária de cristãos¹. Não é surpresa que o Cristo Redentor, de braços abertos sobre a paisagem tropical do Rio de Janeiro, seja símbolo intrínseco do nosso país na mente de qualquer estrangeiro. Que a Cruz esteja presente no nosso lábaro estrelado assim como no Cruzeiro do Sul que todas as noites nasce em nosso céu, numa lembrança solene da travessia do Cristo, e sinal inevitável da vocação espiritual de nossa pátria amada. A maior cidade do país e expoente continental, foi agraciada com um nome santo que presta homenagem a Paulo de Tarso, o convertido de Damasco, doutor da lei, mas sobretudo, o inesquecível Apóstolo dos Gentios. A Terra de Santa Cruz é berço de fervores espirituais, de seguidores do Cristo.
Se no passado o Cristo escolheu viver no seio de Israel, entre o povo eleito, para dali estender os ramos de sua árvore por todo o Império Romano, é numa conjuntura política e social não menos debilitada que o seu evangelho transplantado fortalece as raízes e busca a luz divina em altitudes serenas, aqui no Brasil. Reconhece-se entre rostos de brasileiros, aqueles que um dia foram legisladores e autoridades romanas, sacerdotes e fariseus, que cobriram as lições do Cristo com um sudário de humilhação e ignomínia. Os circos dos martírios se convertem na crise interna em que verificamos luta constante, alavancada pelo alarido das acusações alheias.
Mas não fujamos! Muito embora a lívida consonância, os tempos que são outros, nos despertam e nos intimam a sermos mais que testemunhas do movimento que se engendra a favor da Pátria do Evangelho. Em sua forma geográfica de coração do mundo, não poderia ser outra a missão deste povo caloroso e gentil, que não a de ensinar a lei da fraternidade universal à todas as nações do mundo. No que falhou Roma, triunfará o Amor em território brasileiro, e dali para todas as partes. Nos disse Humberto de Campos²: "As reservas brasileiras não se circunscrevem ao mundo de aço do progresso material, que impressionou fortemente o espírito de Humboldt, mas se estendem, infinitamente, ao mundo de ouro dos corações, onde o país escreverá a sua epopeia de realizações morais, em favor do mundo."
Todos os dias quando me dou conta de todos os tormentos que injuriam o povo brasileiro, e que nunca sequer chegam à superfície da verdade, a tristeza é proporcional a esperança que me preenche. O sentimento de impotência, que é parte do nosso comodismo e do medo de enfrentamentos, é angustiante. O caminho exaustivo e repleto de agruras que o orgulho e o egoísmo tracejam, passa ainda por um vale nefasto de dor e sofrimento. A minha esperança vem do fato de que é necessário que o homem afunde sob a lama movediça do desespero, para que consiga agarrar-se ao tronco da misericórdia celeste. Tenho a esperança de um futuro onde todas as penas se extinguirão e todos os males serão superados. Que todos se tornarão seguidores da Lei do Amor, sob as bênçãos irradiantes do nosso Cristo, Jesus, e da inexaurível fonte de vida que parte de Deus, nosso Pai. Tenho esperança! Da entropia insustentável das injustiças, eclodirá a regeneração como hausto cálido às almas atormentadas.
Jesus imbuiu-se de humanidade para que, passando por todas as penúrias que nos afligem, sua doutrina do perdão, do amor e da caridade repercutisse fundo na transformação de nós mesmos. Os seguidores foram perseguidos e martirizados, mas continuando a se multiplicar, disseminando-se implacáveis pelas ruas da Roma em que Pedro lançou a pedra fundamental. Mas ainda em sua filosofia pueril, subverteram os ensinamentos e fecharam-se numa redoma de ilusões materiais. A palavra de poder, todavia, avançou por entre os séculos, latente, para florescer no solo fértil de uma pátria de gente simples e de coração aberto. Como bem pontua Humberto de Campos, "em cujas estradas, cheias de esperança, luta, sonha e trabalha o povo fraternal e generoso, cuja alma é a flor amorosa de três raças tristes, na expressão harmoniosa de um dos seus poetas mais eminentes".
Chegaram os dias de uma nova transformação no íntimo do homem. E somos nós, os brasileiros, que vamos na frente trazendo a humanidade ao progresso espiritual. Que o amor cubra a multidão de pecados para todo o sempre!
Notas:
1- 86,8% dos brasileiros são cristãos, segundo dados do IBGE (2010).
2- Autor espiritual do livro "Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho", psicografado por Francisco Cândido Xavier.
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Que texto ótimo Duds, eu concordo muito com isso tudo, e já tive divagações sobre algumas sentenças.
ResponderExcluir"Chegaram os dias de uma nova transformação no íntimo do homem."
Lindo lindo!
Xero, Zu