Já faz alguns anos que entre um pensamento e outro, tento encontrar racionalizações para Deus e tudo que lhe diz respeito. Quero dizer racionalizações curiosas, não aquelas orgulhosas. Numa dessas excursões mentais parei pra pensar naquela frase que diz: Deus é amor. Provavelmente toda a ideia foi engatada em um banho sossegado, entre a leitura da composição química do shampoo e a observação das ondas que a água produzia no chão raso. Será que, para o amor haveria uma explicação mais racional cujo vislumbre pudesse ser verificado nas ciências do mundo? E aí quem sabe aproximar-mo-nos mais da compreensão de Deus?
De fato, no Livro dos Espíritos somos esclarecidos a respeito das Leis Naturais, e de como elas englobam as leis físicas que estão intrinsecamente associadas às leis morais: se uma pedra atirada cai ao chão, atestando a Lei de Ação e Reação, o mal praticado contra um irmão é origem de uma moléstia ou provação pela qual passamos no futuro, obedecendo a Lei moral de Causa e Efeito, por exemplo. Considerando a eloquência com que o Espiritismo nos clareia a consonância admirável entre religião e ciência, me pus a considerar uma maneira de trazer o Amor para mais perto das leis físicas, e assim dar um novo passo na definição de Deus dentro da minha cabeça e coração. As respostas vieram numa circunstância em que não esperava que viessem.
Preferi não falar em laços espirituais para respeitar as convicções precoces dela, mas o termo "magnetismo espiritual" pareceu ser bem recebido na brincadeira, até pela relação com o imã. Falamos sobre pessoas que estão sempre juntas uma da outra e sobre pessoas com quem não "vamos muito com a cara". E à medida em que avançávamos na história, conseguimos trazer a noção de que era o Amor que continuava atraindo e envolvendo Júlio aos caminhos de Luíza. Finalmente, a minha sobrinha chegou por suas próprias conclusões, à constatação de que o amor entre os personagens era eterno ("esse amor é eterno mesmo viu.."), descobrindo, portanto, um atributo determinante que o define.
No final do dia a brincadeira com o imã já tinha passado pelo truque de mover o objeto por debaixo da mesa, e chegava agora à correntes magnéticas, unindo objetos de metal um ao outro. Foi quando senti que a analogia talvez não fosse somente uma analogia. Na realidade eu devia ter aprofundado o tema do amor já ali na corrente de metais, explicando como ele é uma força que une ao mesmo tempo que é transmitido. Mas acho que somente agora formulei realmente a noção.
No inicio do pensamento lá no banho, sei lá há quanto tempo atrás, imaginei se o amor, antes desse sentimento que sentimos uns pelos outros, não seria na verdade uma força reguladora que busca (re)estabelecer a unidade e harmonia no universo. De forma que a questão não seja o amor que sentimos, mas o grau de coesão que há entre os seres.
Penso que a Lei de Amor, sintetizada no ensinamento de Jesus ("amai-vos uns aos outros como eu vos amei"), talvez seja uma lei de proporção física muito maior do que jamais supus. E se o amor é uma força tal a de um imã? Sua propriedade é de atração irresistível (inevitavelmente amaremos), num comportamento cósmico de assegurar a unidade. Ela será mais ou menos intensa, de acordo com a proximidade (afinidade) espiritual, assim como os imãs. Só que também será obrigatoriamente uma força que provoca repulsa, como se observa entre os pólos de mesma carga.
Dada a Unidade observada em toda a Criação Divina, Deus não terá criado algo que colabore com a desunião. O que dizer pois da repulsa magnética, isto é, da repulsa natural entre os seres? Bem, isto nos leva primeiro a outra lição do Cristo: "Amai até mesmo os vossos inimigos". As nossas antipatias ou repulsas magnéticas representam, em grau extremo, os nossos inimigos, com quem a relação repulsiva se desenvolve a partir de interferências danosas que causamos às vidas um do outro. Mas como aprendemos na questão 887 do Livro dos Espíritos, isto não quer dizer que necessariamente devemos ter pelos inimigos a mesma manifestação de amor que temos por nossos amigos. Significa, principalmente, retribuir o mal com o bem. E esta informação é de extrema importância, pois é fato decisivo que classifica a Lei como de Amor, mais do que pura e simplesmente de Magnetismo.
Se as polaridades tais entre duas pedras de imã fazem com que uma se afaste da outra, o Espírito, por outro lado, é vivo e dotado da capacidade de alterar sua vibração, seus sentimentos, sua carga magnética; ele possui livre arbítrio. Quando retribui o mal com o bem, provoca uma mudança sensível no sentido da força, estabelecendo uma atração que no início é fraca mas que cresce até ser forte o suficiente para gerar aproximação involuntária. Como bem defende a sabedoria popular e a própria psicologia, o ódio nada mais é que uma manifestação do amor, corroborando com a sentença de que há somente uma força, cujos sentidos vetoriais influem no maior ou menor grau de atração entre os seres.
E o melhor: não somente atrai, como une à medida que se transmite. É a corrente de metais da minha sobrinha. Tal qual um imã e a notável capacidade de repassar sua propriedade magnética à determinadas ligas metálicas, o amor de um é capaz de contagiar todos os seres, ligando-os uns aos outros sucessivamente em uma corrente fraterna, universal e eterna. Uma força de fato extraordinária e misteriosa como uma pedra magnética. Capaz inclusive de apontar caminhos e orientar jornadas como uma bússola do Espírito.
Conclui que era um pensamento relevante. Deus passou a fazer ainda mais sentido, quando verificado na frase "Deus é amor". Neste sentido, Ele será força reguladora do mundo, sem a qual tudo está desunido, fragmentado, caótico. É uma ideia a se pensar noutras oportunidades de banho.
Perto da minha sobrinha ir embora perguntei se ela não queria ficar com uma das pedras e eu ficava com a outra, para que as juntássemos quando nos encontrássemos. Ela segurou considerando a proposta dizendo que "ia ser massa", mas logo voltando atrás com "não, mas eu vou perder". Provavelmente ela ia mesmo acabar perdendo entre brinquedos e cobertores. Guardei-as comigo. Antes de bater a porta de despedida, no entanto, ela soltou um beijo e gritou: "Amor eterno!". Desconsertado, gritei o mesmo. Graças à Providência divina, este imã ela não vai perder nunca.
Referências
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2010.
______. A Gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2010.

