A política é divina



A política é divina.

Parece um contrassenso, a princípio, se consideramos o panorama de corrupção que permeia este tipo de cenário social. Se a política é corrupta não pode ser divina, já que ser divino implica ser perfeito. E, sinceramente, não me parece que determinados congressistas brasileiros estejam próximos sequer de uma conduta moral coerente com seus discursos. No entanto, lembremos de Platão quando da enunciação do mundo das ideias, na defesa de que existem dois mundos distintos nos quais tomamos parte, o físico, ou inferior, e o ideal, ou superior. Explica Nash (2013):

"O mundo superior é composto de essência imaterial e eterna que apreendemos com nossas mentes. O mundo ideal de Platão (algumas vezes chamado de o mundo das Formas) é mais real para Platão que o mundo físico, na medida em que as coisas particulares que existem no mundo dos corpos, são cópias, ou imitações, dos seus arquétipos, as Formas." (Life's Ultimate Question, p.63)

Em outras palavras, Platão busca compreender o mundo como uma réplica de um outro perfeito, além dos nossos sentidos. O que conhecemos por árvore na verdade não é uma árvore, mas uma imitação de uma árvore que existe no mundo das ideias, em um patamar de perfeição. Esta concepção da origem do mundo inaugura uma nova abordagem filosófica com Platão. Como afirma Chagas (2009), "nenhum dos filósofos que o antecedeu tinha vislumbrado a possibilidade de se explicar as causas do universo por meio de um princípio metaempírico. Pelo contrário, todas as suposições feitas até então partiam sempre da própria realidade física."

Corroborando com a tese do mundo das Formas, o livro de Êxodo atribuído à Moisés, no Velho Testamento, descreve uma circunstância muito sutil cuja leitura, através de Platão, ganha luzes distintas acerca da existência de um mundo perfeito e superior a este, o físico. Está no capítulo 25, nos versículos 8 e 9: "Faze-me um santuário, para que eu possa habitar no meio deles. Farás tudo conforme o modelo da Habitação e o modelo da sua mobília que irei te mostrar."



Eis o contexto. Os hebreus haviam saído da escravidão no Egito sob instruções divinas confiadas a Moisés, que liderou o povo pelo deserto em busca de uma terra onde habitar. Mas não era uma terra qualquer, tratava-se da Terra Prometida pelo Senhor, cujas orientações permeiam todo o livro de Êxodo, ganhando especial significado na Aliança do Sinai. Encontramos ali uma culminância de todos os eventos anteriores à chegada dos hebreus diante do monte Sinai: a teofania. O momento em que o Senhor desce à montanha e confia o Decálogo a Moisés, nas tábuas de pedra. E aí depois que transmite as leis para os hebreus aos pés do monte, Moisés retorna à montanha dessa vez acompanhado de Aarão, Nadab, Abiú e sententa anciãos de Israel, como lhe instruíra o Senhor. E lá permanece quarenta dias e quarenta noites, período onde encontramos registrado os versículos citados anteriormente, quando das "prescrições referentes à construção do santuário e aos seus ministros".

É interessante porque a noção pode passar despercebida, visto que ela repousa exatamente na palavra 'mostrar' do último versículo. Deus não explica, não sugere, não ensina, ele mostra a Moisés o modelo da Habitação. Imaginemos uma situação análoga. Digamos que comprei um imóvel e quero que meu quarto seja igual ao que vi em uma revista. Naturalmente vou sentir dificuldade de explicar para um arquiteto a minha visão do quarto, de maneira que mostrá-lo as páginas da revista será muito mais fácil e exato. Não acho que seja o caso de uma entidade espiritual estar apresentando um Catálogo Celeste de santuário à Moisés, é claro. E por isto, os versículos nos apontam ao entendimento de que um santuário teria sido mostrado a ou intuído por Moisés, em um mundo elevado, acima deste, para que ele criasse uma réplica, ainda que primitiva, no plano terreno. Este entendimento nos conecta diretamente à reflexão de Platão sobre um mundo das Formas, o mundo ideal.

É à luz desta concepção que pode-se afirmar a política ser divina. O nosso sistema político, as representatividades do povo, o líder da nação e seus ministérios, seria uma organização social copiada de uma mais perfeita localizada em plano espiritual, ou mundo ideal. E não precisamos ir muito longe para encontrar referências sobre a organização política em cidades espirituais. Em Nosso Lar, André Luiz nos relata um diálogo com Lísias, logo em seus primeiros dias na colônia:

"Não tem visto, nos atos da prece, nosso governador espiritual cercado de 72 colaboradores? Pois são ministros de Nosso Lar. A colônia, que é essencialmente de trabalho e realização, divide-se em seis Ministérios, orientados, cada qual, por 12 ministros. Temos os Ministérios da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação, do Esclarecimento, da Elevação e da União Divina. Os quatro primeiros nos aproximam das esferas terrestres, os dois últimos nos ligam ao plano superior, visto que nossa cidade espiritual é zona de transição." (Nosso Lar, p. 52)

Tanto na passagem de Êxodo como em Nosso Lar, é oportuno destacar a presença dos termos Ministros e Ministérios. E é curioso porque Moisés sobe a montanha acompanhado de 70 anciãos, identificados como ministros no registro bíblico, ao passo que Nosso Lar conta com 72, distribuídos em cinco ministérios. Impossível deixar passar despercebida esta organização política em planos espirituais, ao confrontá-las com a nossa própria, aqui em plano terreno, principalmente se a entendemos sob a ótica de Platão, do mundo de arquétipos e formas que servem de modelo para nosso mundo.

Não surpreende, por conseguinte, que encontremos no comentário de Allan Kardec à questão 266 do Livro dos Espíritos, a seguinte afirmativa: "A vida humana é, assim, uma cópia da vida espiritual; nela encontramos, em menor escala, todas as peripécias da outra". E mais à frente, na questão 278, destacado em resposta da espiritualidade: "É todo um mundo, do qual o vosso é pálido reflexo", referindo-se ao mundo em que os Espíritos interagem entre si.





Ante esta breve excursão intertextual, podemos chegar afinal a uma conclusão interdimensional a respeito da política humana. Se a organização política, entendendo-a como sistema de representatividade do povo, trata-se em primeira instância de uma organização superior e divina , isto significa que a política humana, entendida como um esboço ou projeto da mesma, é perfectível.

Mas no que consiste a perfectibilidade política? Onde está o seu progresso?

Como não é um organismo vivo, mas um sistema alimentado por individualidades que asseguram seu funcionamento por meio de suas respectivas competências, entende-se que a chave de seu progresso é a chave mesma do progresso dos indivíduos que lhe compõe, ou seja, a transformação moral. A política só é corrupta à medida que os políticos são corruptos.

Os protestos dos últimos tempos em busca de um fazer político mais correto, que agora representam uma espécie de sentimento de urgência generalizado, reforçam um movimento de defesa por uma Nova Política. Sobre nova política fala-se em diversos debates, tocando-se em plebiscitos, desligações partidárias, extinção de reeleições, alternância de poder. Mas é muitíssimo curioso, e quase inacreditável, que em nenhum momento o conjunto de opiniões frenéticas do povo sobre reforma política consiga tocar no ponto da reforma íntima, que vem a ser  o ponto chave para o progresso da política e, por conseguinte, para sua afirmação divina.

O sentimento de urgência deve ser pela reforma que opera de dentro para fora, do indivíduo ao organismo político. É necessário se faça uma reforma que toque no íntimo de todo aquele envolvido no sistema político, transformando-os no sentido moral que lhes é incipiente. No que toque a honestidade, o amor, a fraternidade, a benevolência e a caridade. Como observar mudanças no mundo sem uma mudança individual que nos torne todos agentes do bem comum?

É impossível conceber uma Nova Política que não seja resultante de um movimento de Reforma Íntima. Esta reforma é, por sua vez, uma experiência de transcender à própria existência, encontrando na espiritualização uma fonte de respostas mais justas e éticas às problemáticas do mundo, mais que aquelas fornecidas pelas correntes materialistas ou niilistas. Acontece que a transcendência é função por excelência da Religião, entendida aqui em seu sentido essencial de "religar"¹ o homem à Deus. Não que seja o momento de o Estado declarar-se cristão ou budista, pois seria um contrassenso. Trata-se de entender-se religioso, porque espiritual, não num sentido sectário e sim universal. No lugar de rejeitar a religião em seu funcionamento, admiti-la, fazendo mais do que aceita-la por direito do cidadão em sua liberdade de culto, incorporando o seu código ético no fazer político. A este respeito Herculano Pires apud Incontri (2001) faz uma ressalva pertinente, defendendo a extinção do laicismo já na Educação, o que é adequado quando se observa que ela está da formação do coro político de qualquer país:

"O laicismo foi apenas um elemento histórico, inegavelmente necessário, mas que agora tem que ser substituído por um novo elemento. E qual seria essa novidade? Não, certamente, o restabelecimento das formas arcaicas e anacrônicas do ensino religioso sectário nas escolas. Isso seria um retrocesso e portanto uma negação de todas as grandes conquistas (...). Reconhecendo que a Religião corresponde a uma exigência natural da condição humana, e que pertence de maneira irrevogável ao campo do Conhecimento, devemos reconduzi-la à escola, mas desprovida da roupagem imprópria do sectarismo. Temos de introduzir nos currículos escolares, em todos os graus de ensino, a disciplina Religião ao lado da Ciência e da Filosofia. Sua necessidade é inegável, pois sem atender aos reclamos do transcendente no homem não atingiremos os objetivos da paidéia grega: a educação completa do ser para o desenvolvimento integral e harmonioso de todas as suas possibilidades" (Pedagogia Espírita, p. 226-227)

A política é, portanto, essencialmente divina. Não somente em detrimento de seu caráter perfectível, mas sobretudo por sua origem metafísica. Todavia, só consuma-se como tal, porquanto seja capaz de evoluir como organismo de individualidades, passando de uma totalidade irrealizável de personalidades egocêntricas, para um conjunto metonímico, em que as partes consigam representar os anseios do todo. Esta evolução consiste num processo demorado de reforma íntima resultante de uma educação administrada e auto realizada, convergindo invariavelmente ao transcendente que é constituinte de todo desenvolvimento "integral e harmonioso".

Em palavras modestas, a política é divina porque somente aproxima-se do perfeito através da religião, entendida em sua acepção mais profunda.













Referências:

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição rev.e ampl. São Paulo: Paulus, 2002. 
CHAGAS, José Soares das. O DUALISMO PLATÔNICO FRENTE À ONTOLOGIA DOS PHISIÓLOGOS. Revista Homem, Espaço e Tempo, Vale do Acaraú, p.83-109, set. 2009. 
Bimestral.
INCONTRI, Dora. Pedagogia Espírita: um projeto brasileiro e suas raízes. Bragança Paulista, Comenius, 2001.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília, FEB, 2013
NASH, Ronald H. Life's Ultimate Questions. Louisville: Zondervan, 2013.
XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Brasília, FEB, 2013. 

Notas:

1 - do latim: "re-ligare", que significa "voltar a ligar", ligar novamente".



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