O tempo é uma dimensão muito curiosa. Tenho pensado sobre o assunto já há muitos meses, entre paradas e solavancos, sem chegar exatamente a uma conclusão reveladora; coisa que aliás nunca pretendi alcançar em virtude de minha mente muitíssimo limitada.
Mas bem... Acontece que todas as sextas à noite sento-me na mesma cadeira num grupo de estudo que frequento no centro espírita, e posiciono-me diante de um relógio circular, que fica pendurado na parede em cima da entrada. Naquele dia marcava sete e cinco, uma reta. E me veio ali o pensamento de que o tempo é tudo o que existe: não há nada que não seja definido pelo tempo. A semente é a árvore, o embrião é o homem, a madeira é o barco. Assim também o poente é a aurora, o erro é a reparação, a experiência é o progresso, e o átomo é o anjo.
A distância que separa quem fomos de quem seremos, é o tempo. E é importante estabelecer o tempo como distância para que não o entendamos como força que trabalha sozinha na construção do Ser, pois não é absolutamente isto. Somos os artífices do nosso progresso moral e intelectual e não há nada que o tempo possa fazer em nosso lugar.
Mas é muito interessante entender o tempo dessa maneira: não como a mera marcação cronológica dos acontecimentos, mas como o registro de quem nós somos. Posso dizer com muita segurança que eu sou agora 18 de Abril de 2015. É quem eu realmente sou, porque representa o conjunto de quem eu consegui me tornar ao longo das existências até hoje.
Chega a ser muito óbvio, mas a noção é também tranquilizante em detrimento de duas percepções que possamos estabelecer: a) em nossas proporções o tempo é irredutível b) o progresso é lei da natureza. Isto significa que é expressamente impossível permanecer onde estamos e em quem somos para sempre. E se consideramos que a perfeição é o ponto de chegada do nosso processo evolutivo, ou da lei de progresso que atua sobre nós, e, mais ainda, que a perfeição conduz a felicidade, então a maior fatalidade da existência é ser feliz. Inevitável, indesviável, invariável, implacável: é uma questão de tempo. O átomo é o anjo.
Quando pensamos desta maneira, há uma frase bíblica cujo sentido é notadamente modificado segundo o que geralmente se interpreta a seu respeito. Ei-la: "Deus criou o homem à sua imagem e semelhança". Bem, se Deus nos criou a sua imagem e semelhança, o que nos diz a lógica é que somos deuses. E na verdade não há disparate nenhum nesta afirmação, posto que o próprio Cristo já a fez: "vós sois deuses, brilhai a vossa luz". O que tudo isto significa? Como é possível que eu seja imagem e semelhança de Deus e, mais ainda, por que o Cristo corroborou com a sentença ao nos dizer que somos de fato deuses?
Bom, creio que a esta altura a resposta seja muito clara: é o tempo. Se pensarmos bem, um feto guarda pouca ou quase nenhuma semelhança com os seus pais, mas não deixamos de dizer que ele é a imagem e semelhança daqueles que lhe geraram, pelo fato de que ele realmente o será um dia. O feto, sabemos todos, é apenas um estágio de desenvolvimento até que aquele projeto de ser se torne um homem muitíssimo parecido com seu pai, embora nunca se torne de fato o pai.
O mesmo se sucede conosco, Espíritos, em relação à Deus, ou ao Cristo, que está mais perto de nós. Não seremos Deus, mas podemos ser deuses! Por enquanto somos criancinhas pequenas, bebês, num aprendizado contínuo que nos ajuda a crescer com vigor. Assim como os nutrientes provenientes do alimento material catalisam e possibilitam que nosso corpo mude e se desenvolva, também as experiências constituem o pão de nosso espírito. As experiências culminam em mudanças morais que transformam o Espírito para melhor, rumo a perfeição. Rumo a Deus.
Neste ínterim é o tempo que sinaliza os quilômetros que havemos de ter percorrido. E as batidas do relógio marcam os segundos solenes que proclamam a aproximação inexorável da nossa felicidade.

Arrasou, belo texto amigo!
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