Hebreus

A sensação é de que Israel sofre de uma espécie de 'síndrome de peter pan' extenuante. Recusa-se ao crescimento e à vida adulta, para a qual deveria estar caminhando. É enternecedor perceber como o inesquecível "fermento dos fariseus" ainda é substância que congestiona corações dentre judeus extremados. Inevitável recordar-se, em reflexão de todos os conflitos armados, da epístola aos hebreus, quando o autor assim se expressa:

"Pois, uma vez que com o tempo vós deveríeis ter-vos tornado mestres, necessitais novamente que vos ensinem os primeiros rudimentos dos oráculos de Deus, e precisais de leite, e não de alimento sólido. De fato, aquele que ainda se amamenta não pode degustar a doutrina da justiça, pois é criancinha! Os adultos, porém, que pelo hábito possuem o senso moral exercitado para discernir o bem e o mal, recebem o alimento sólido." (Hb 5, 12-14)

O autor busca advertir Israel acerca de sua progressão lenta e dificuldade em apreender os sublimes ensinamentos e significado do Cristo. Adverte, porque diferente dos povos pagãos da Antiguidade, Israel já há mais de mil anos cultivava uma vida em aliança com Deus. Desenvolviam um culto não em torno das imagens de pedra e metal fundido, mas diante do desafio de um monoteísmo ligado ao sentimento de presença espiritual habitando no meio do povo. Tomados por inferiores, eram, no entanto, o povo eleito de Deus, alvos de pedagogia incompreendida, filhos pequenos em que os desígnios sagrados de amor, consumados no Cristo, deveriam se realizar dali para todas as nações.

Mas já naqueles dias, há dois mil anos atrás, a reclusão de Israel no orgulho e na recusa em admitir um rei cujo reino não é deste mundo, eram tidas como cegas e incompreensíveis. Que dirá hoje, quando quatro mil anos nos separam de Abraão! Como entender, no transcurso da evolução e, tanto quanto, diante de tão expressivo percurso histórico, que Israel continue a crer no Senhor dos Exércitos, em contrapartida ao Senhor das Estrelas?

Ora, de fato é penoso o exercício de ler as notícias dos últimos dias, em face de tanto sofrimento, injustiça e vida ceifada. Mas tanto quanto, é penoso também reviver a dura compreensão de que somos todos hebreus. Rememorar que aquela epístola se dirige à humanidade, na visão de que a história de Israel é também a nossa. De que somos nós, fugindo da escravidão no Egito Antigo, com um deserto agigantado no caminho para a Terra Prometida.



Sentimos no fundo das nossas intuições ou na ponta dos dedos direcionados ao céu, que o mundo se revolve de anseios e de íntimas cogitações angustiadas. Chegamos a um ponto em que a areia superada por nossa jornada de erros e redenções, é um percurso muito distante para fazer a volta. Mas as montanhas do deserto que ainda nos desafia pela frente é insondável e intimidante. De tal maneira sentiram-se os hebreus no passado:

"Iahweh nos odeia! Fez-nos sair da terra do Egito para nos entregar nas mãos dos amorreus e nos exterminar! Para onde subiremos? Nossos irmãos nos desencorajaram, dizendo: É um povo mais numeroso e de estatura mais alta do que nós, as cidades são grandes e fortificadas até o céu." (Dt 1: 27-28)

Neste trecho, a terra prometida está ali mais perto de Israel do que jamais esteve por quarenta anos de peregrinação no deserto dos sofrimentos, e ali titubeiam no desafio. Que faremos? Retornar, permanecer ou prosseguir? A humanidade passa por um período decisivo. Sente sede e fome. Atravessou dias secos e amargos e conheceu oásis de ilusões. Chega a um ponto do caminho em que não consegue encontrar, debaixo de seus pés, as respostas para as perguntas mais fundamentais, que faz sob o peso do céu. A este respeito, fala Kardec com sua reconhecida precisão:

"Eis o inevitável efeito das épocas de transição: desaba o edifício do passado, sem que ainda o do futuro se ache construído. O homem se assemelha ao adolescente, que, já não tendo a crença ingênua dos seus primeiros anos, ainda não possui os conhecimentos da idade madura. Apenas sente vagas aspirações, que não sabe definir." (A Gênese, p. 78)

Os mísseis que partem de Israel, repercutem no íntimo da humanidade. Não somos nós que bombardeia-mo-nos uns aos outros, diariamente, com projéteis de egoísmo e orgulho? Cuja intolerância e vaidade, pretende subjugar opiniões, credos, raças, nacionalidade, em função das nossas próprias? Quantas vezes as nossas palavras não fizeram desmoronar a alegria de alguém ou lhe atearam fogo na paz! A guerra em Israel é a guerra íntima e silenciosa que a humanidade trava todos dias. E por isso é ainda mais doloroso observar as atrocidades que nos chegam. São como um espelho de nós próprios: hebreus peregrinos, no deserto de suas dores, em busca de conquistar a terra prometida.

Afinal, permitam-me transcrever mais algumas palavras de Kardec. Um trecho um pouco extenso mas que, há de se reconhecer, valerá muito mais do que todo este lido:

"Já não é o Deus de um único povo privilegiado, o Deus dos Exércitos, presidindo aos combates para sustentar a sua própria causa contra o deus dos outros povos, mas o pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção por sobre todos os seus filhos e os chama todos a si; já não é o Deus que recompensa e pune só pelos bens da Terra, que faz consistir a glória e a felicidade na escravidão dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas sim um Deus que diz aos homens: "A vossa verdadeira pátria não é neste mundo, mas no reino celestial, lá onde os humildes de coração serão elevados e os orgulhosos serão humilhados." Já não é o deus que faz da vingança uma virtude e ordena se retribua olho por olho, dente por dente; mas o Deus de misericórdia, que diz: "Perdoai as ofensas, se quiserdes ser perdoados; fazei o bem em troca do mal; não façais a outrem o que não quereis que vos façam". Já não é o Deus mesquinho e meticuloso, que impõe, sob as mais rigorosas penas, o modo como quer ser adorado, que se ofende com a inobservância de uma fórmula; mas o Deus grande, que vê o pensamento e não se honra com a forma. Enfim, já não é o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado". (A Gênese, p. 24-25)


Referencias

KARDEC, Allan.  A Gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2010.
BIBLIA, 
 Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002. 



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