Há mais ou menos um ano atrás, travei um primeiro contato muito breve com a filosofia existencialista de Jean Paul Sartre. Lembro que foi numa aula da faculdade, em que o meu professor mencionava o termo 'O eu e o outro', relacionado àquele filósofo. Não recordo exatamente o contexto, mas na ocasião joguei as palavras no Google e desde então tenho andado, no bolso da bermuda, com um artigo sobre o assunto, favoritado no aplicativo de navegação do ipod. O fato é que fatalmente o esqueci devido a uma série de acontecimentos que não vem ao caso, pelo menos não hoje. Até que esse mês o redescobri, primeiro por causa do tempo livre das férias e depois porque quando me deparei com a página subitamente o reconheci como a chave que poderia abrir a porta deste texto, em que nós estamos agora.
Acontece que nos últimos dias, tinha estado pensativo sobre as possibilidades do Facebook como um arcabouço (bela palavra!) de interações sociais e virtuais, que pudesse servir para estudos de direcionamentos diversos. E me parece que a rede social poderia ser uma maneira de aplicação muito recente e particular da relação básica que Sartre estabelece entre o Eu e o Outro. Num artigo, de Márcia Jacoby e Sergio Antonio Carlos, os autores estabelecem que "para Sartre (1943), é no encontro entre os seres que ocorre a identidade e o sentido do Ser. É o que o autor denomina de relação original estabelecida pelo ato do olhar". Em Sartre, o ato de olhar, a observância do exterior a si, é a via em que se expressa a definição de sua identidade. Mais adiante no artigo temos o seguinte:
"Considerando este entendimento, é a apreensão da consciência de si mesmo que descobre o outro como aquele que retorna a verdade da minha imagem e afirma minha existência. Isso pressiona o meu olhar a também servir para voltar-se sobre o Eu, agora sujeito-objeto, indagando a própria identidade. Esta reflexão sustenta a afirmação do autor que somos situados no mundo pelo Outro"
Nós existimos para nós mesmos e para os outros, constituindo simultaneamente sujeitos e objetos da observação de si. O nosso processo de construção individual engloba o que cada um faz consigo e o que fará com o que os outros fizerem dele. Em outras palavras, é como se a nossa realização, a nossa existência, só se consumasse e ganhasse sentido através do olhar do outro. O que existe só existe se é presenciado. De uma maneira análoga é como colocar-se diante de um espelho e constatar-se, (re)conhecer-se, através da observação externa de si, em que o espelho é o Outro e aquele que se põe diante dele é o Eu, a enxergar o seu reflexo através daquele. Se nos defrontamos com o espelho e não enxergamos nossa projeção, então não existimos.
Evidentemente, Sartre rejeitava a ideia da essência, de uma subjetividade autônoma, de uma interioridade que existisse a despeito do que há do lado de fora. Para o filósofo, nós não somos o desencadeamento da nossa essência, de uma premissa interior e anterior: nós primeiro existimos, e é o nosso existir, sujeito aos outros, ao mundo e à história, que nos serve de instância determinante do Ser. Não é uma visão otimista. Pelo contrário, estabelecia uma certa noção de gratuidade à vida humana, pois se o homem é desprovido de essência, que lhe dê natureza, lhe explique ou que revele determinação prévia à existência, advinda de alguma inteligência, tal Deus, então o homem não tem o propósito original de ser coisa alguma. Mas é precisamente naquela relação do eu e o outro que encontramos o elo de conexão com a rede social, em específico o Facebook.
"A explosão demográfica das redes sociais digitais, que possibilitam a manifestação subjetiva e a promoção do 'eu' para uma audiência cativa, formada por amigos ou seguidores, assinala o quanto tais plataformas parecem corresponder à necessidade de ser reconhecidamente alguém, democratizando o acesso à realização do sonho de ser star em um star system particular"
Neste trecho, de um artigo de Cíntia Dal Bello, em que esbarrei curiosamente a partir do Facebook, encontramos a evidência: a rede social passa a funcionar como uma plataforma que serve ao objetivo de consumar um Eu em conjunto com e por meio do Outro. Mas acredito que não precisaríamos de citação nenhuma para validar o que toda a geração Y e Z detém internalizado em sua consciência. Todos nós que usamos o Facebook, sabemos que a pessoa que está lá é o resultado do que queremos que os outros vejam e pensem de nós, possibilitando a afirmação de um Ser virtual, uma espécie de alter ego (o star) que, sob esta perspectiva, endossa a tese de que uma pessoa só existe se ela está no Facebook, sendo vista. E é interessante perceber, além disso, que embora nos pareça que estamos estabelecendo quem somos, ainda que virtualmente, na realidade estamos somente nos adequando (ou indo de encontro, o que também é uma sujeição) ao senso comum que representa o conjunto de opiniões dos outros. Esta percepção toca na questão da liberdade limitada também encontrada no discurso de Sartre, mas reflete principalmente a afirmação de que somos situados no mundo pelo outro; que somos definidos como uma construção exterior, descentralizada do eu, que dialoga indissociavelmente com o olhar do Outro.
"Por confundir-se tão intimamente com o imaginário do espetáculo, a visibilidade facultada pelas redes torna-se imprescindível e desejável – ainda que traga consigo, pois lhe é intrínseca!, a faceta da vigilância."Em seu artigo, Dal Bello vai além no ato de olhar. Reportando-se a ele não somente como constatação e reconhecimento mas também como observação vigilante, a autora lança-se sobre um terreno de larga discussão no que tange as redes sociais: a noção de privacidade. Simultâneo ao nosso desejo de ser visto da maneira como queremos ser vistos pelos outros, dispensamos a nossa intimidade de forma a configurar uma circunstância de evasão da privacidade, como pontua a autora, e não de invasão como se haveria de supor. Há uma busca premeditada em se expor e angariar audiência, sob a ideia de que todos saibam o que fazemos, com quem fazemos, onde fazemos e o que aconteceu enquanto fazíamos. Em contrapartida, somos invadidos pela sensação orgulhosa e interior de 'estou onde você não está' e 'fiz o que você não fez': o paradoxo de uma celebridade anônima, flagrando-se diante de sua própria câmera num processo de ser visto sob a condição forçosa de paparazzi de si próprio. E como todo paparazzi, será também um olhar vigilante na observância de cada passo dado, ainda que o seu.
Como pontua Jacoby e Antonio Carlos, "o caráter do olhar, como fato que transporta a dimensão do estabelecimento da relação Eu-Outro, é um dos pilares filosóficos de Sartre". Indiscutivelmente, a lógica da crescente disseminação da rede Facebook não é outra que não a do olhar: o de se ver através do ser visto, o da curiosidade e da vigilância. Neste último sentido, Dal Bello reforça a "instituição da visibilidade como instância de vigilância global", que, segundo a autora, é traçada por Foucault sob a forma de uma estratégia moderna para o "“problema da acumulação dos homens” atrelado "ao perturbador crescimento demográfico nos centros urbanos no século XVIII". Isto se relaciona com a seguinte questão: como monitorar e manter a ordem de uma população cujas proporções extrapolam à quantidade de olhares vigilantes? A visibilidade máxima atribuída a cada indivíduo é uma maneira de coagi-los a agir corretamente.
Você não cairia na besteira de fazer um comentário preconceituoso no Facebook porque estamos sujeitos aos olhares de todos, que denunciam e intimidam, com a pena da visibilidade de grande proporção. Como exemplo deste tipo de lógica, Dal Bello traz ao seu artigo a arquitetura do Panopticum (imagem abaixo), cuja estrutura projetada por Bentham¹ para diferentes tipos de ambientes, expunha os prisioneiros uns aos outros nas penitenciárias e, principalmente, tornava possível que um grupo pequeno de oficiais pudesse dar conta da vigilância de muitos detentos.
Sobre a tese, Dall Bello respalda-se em Foucault, citando-o:
"Este reino da ‘opinião’, invocado com tanta freqüência nesta época, é um tipo de funcionamento em que o poder poderá se exercer pelo simples fato de que as coisas serão sabidas e de que as pessoas serão vistas por um tipo de olhar imediato, coletivo e anônimo. Um poder cuja instância principal fosse a opinião não poderia tolerar regiões de escuridão. Se o projeto de Bentham despertou interesse, foi porque ele fornecia a fórmula, aplicável a muitos domínios diferentes, de um ‘poder exercendo-se por transparências’"
É por esta perspectiva, como acrescenta a autora, que os espaços privados começaram a ser encarados no século XVIII com um certo receio e desconfiança. Se por um lado a visibilidade traduzia-se em cumprimento das leis e normas, configurando o impedimento da realização do mal, por outro o confinamento dentro dos limites do não-público e do íntimo, constituía o espaço das conspirações, confabulações e segredos obscuros. Uma concepção que produzia suspeitas em torno da consolidação do quarto privado.
Curiosamente, essa ideia da vigilância de muitos homens por meio de poucos e de um poder que se exerce pelo olhar, encontra um paralelo intrigante na concepção que muitos possuem de Deus, mais nitidamente naquela difundida na Idade Média. É sabido que no passado a Igreja Católica, o poder soberano entre os séculos V e XV da era cristã, sempre exerceu sua supremacia através do temor à Deus. A perspectiva do inferno e o castigo divino, incutiam nas pessoas a obediência aos comandos da Igreja, e o medo do poder da mão divina. Tomando a licença de atribuir à Deus formas humanas, aqui vale pontuar: de que outra maneira, senão pelo olho de Deus, pelo seu olhar inescapável, se consumava essa vigilância dos atos, afirmada pela Igreja? É notório que ali se estabelecia a percepção do Eu, pelo Outro divino, e nossa manifestação como Ser, por adequação/rejeição Àquele. O que nos leva a questionar: haveria privacidade, como uma noção análoga ao quarto privado, que nos abstivesse deste olhar implacável de Deus?
Inegavelmente, Deus é o mais antigo de todos os olhares a observar-nos. O seu olhar remonta não somente aos primórdios da nossa raça, como precede a própria história do tempo. Sabê-lo é tomar a consciência de que nunca estamos sozinhos, posto que Deus é onipresente, e que tudo que fazemos é levado em consideração, posto que Deus é onisciente. Ora! Então se não seria este o princípio da visibilidade em sua acepção mais essencial?! Descartando-se o temor oportunista implantado pela Igreja e por concepções menos racionais, resta a sensação do olhar divino que nos toca, produzindo no íntimo das pessoas o sentimento de que elas possuem o comprometimento virtuoso e transcendente com o Bem e a Justiça e, por conseguinte, com Deus. Comprometimento, portanto, com nós mesmos, que fomos criados à imagem e semelhança do Criador.
Relativo à Sartre (o que é absolutamente irônico, pois que seu pensamento rejeita a ideia de divindade), a construção do Eu é fundamentalmente um processo que se dará por meio do ato do olhar deste Outro Onipresente e Onisciente, que "retorna a verdade da minha imagem e afirma minha existência". Mais uma vez recorrendo a analogia, Deus funcionaria como uma espécie de espelho espiritual refletindo o que há por dentro de cada um, retornando-nos a verdade sobre nós mesmos e de nossa existência. Ademais, assim como para o filósofo, os outros e os fatores externos também constituem determinantes da nossa construção de si. A vida, que é Deus em desígnio, por meio de suas provações e obstáculos, funciona como um processo erosivo que lapida e refina o ser. A sucessão de eventos aplicados à existência, constitui o meio que nos proporciona a oportunidade de evoluirmos como espíritos, fazer brilhar a nossa luz, aprendendo com os erros e auxiliando os que erram. Admitir uma essência e Deus, anterior à existência terrena, isenta o discurso existencial da gratuidade estabelecendo um propósito primordial a tudo que nos acontece na vida.
É claro que entender ou reconhecer isto, pressupõe que se creia em Deus. E, evidentemente, assim como existem pessoas que creem, também há as que não o admitem, ou que creem em outro ou em muitos deuses e que seguem uma moral distinta. Mas penso que todos acreditam no princípio de existência da alma, mesmo que inadmitidamente. Até o maior dos incrédulos, ou mais veemente dos existencialistas, deve possuir o sentimento interior de que há algo para além daquilo que lhe diz os sentidos. Só que aquilo em que nós acreditamos, o que está além de nós e da morte, constitui um conjunto múltiplo e diverso, que ora diverge ora converge em suas premissas fundamentais. Como defende Kardec, as "divergências no tocante ao futuro do homem geraram a dúvida e a incredulidade". E é exatamente a dúvida e a incredulidade os alicerces do quarto privado onde o homem procurará fugir à visibilidade dos olhos do Bem e da Justiça. Está aí o lugar em que reside as grandes mazelas da humanidade: um quarto trancado com janelas resistentes à luz divina.
O homem, como acrescenta Kardec, "por toda parte depara com a afirmação a se chocar com a negação, sem que se apresentem provas positivas tanto de um lado quanto de outro. Daí a incerteza, e a incerteza no que respeita à vida futura faz que o homem se atire, tomado de uma espécie de frenesi, para as coisas da vida material." De fato, os momentos em que mais nos atiramos ao mundo e suas potencias, sempre são aqueles em que nos achamos mais perdidos ou entorpecidos pelas faculdades da matéria. E aqueles em que mais nos direcionamos ao Alto, sempre são os mesmos que nos colocam no extremo da vida. Se há um propósito para as nossa existência, e se nós não nos extinguimos com a falência do corpo, haveria de ser muito importante todo o conjunto de vivências e conquistas que não nos fosse possível levar conosco após a morte? Bom, creio que cabe a cada um discernir. Mas não poderia terminar esse texto, cuja extensão acredito que tenha eliminado pelo menos 90% das pessoas que cogitaram lê-lo (e tenho que agradecer pela atenção de você que chegou até aqui), sem uma passagem do livro bíblico de Marcos que traz uma recomendação do Cristo bastante simples e oportuna a este texto. Palavras, ao que parece, pouco compreendidas por nós.
"Olhai, orai e vigiai: porque não sabeis quando chegará o tempo" - Marcos 13:33
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Notas:
1 - Jeremy Bentham: filósofo e jurista inglês.
Referências:
BELLO, Cíntia Dal. Visibilidade, vigilância, identidade e indexação: a questão da privacidade nas redes sociais digitais. O Estatuto da Cibercultura no Brasil. Vol.34, Nº01, 2011.
KARDEC, Allan. A Gênese. Brasília: 2ª ed. FEB, 2013.


